Cannabis medicinal para insônia: revisão Cochrane vê evidência fraca
Revisão Cochrane com 9 ensaios e 537 adultos viu pouco ou nenhum benefício da cannabis medicinal no sono, com evidência de certeza muito baixa.

Uma revisão sistemática da Cochrane, publicada em 13 de outubro de 2026 na Cochrane Database of Systematic Reviews e divulgada pela organização no início de novembro, reuniu os ensaios clínicos disponíveis sobre o uso de cannabis medicinal para tratar insônia. A conclusão é cautelosa: em comparação com placebo, a cannabis medicinal pode ter pouco ou nenhum efeito clinicamente relevante sobre a qualidade do sono, o tempo total dormido e o funcionamento durante o dia. E a confiança nesses resultados é muito baixa.
O trabalho foi conduzido por pesquisadores do centro associado Cochrane do Hospital Italiano de Buenos Aires, na Argentina, e da Universidade de Manitoba, no Canadá. A equipe analisou nove ensaios clínicos randomizados, com 537 adultos de 18 a 76 anos diagnosticados com insônia. Oito estudos compararam a cannabis medicinal com placebo e um a comparou com a amitriptilina, um antidepressivo às vezes usado para o sono. A busca por estudos foi feita até abril de 2025. A revisão não teve financiamento específico, e os autores declararam não ter conflitos de interesse.
O que o estudo encontrou
Os produtos testados variaram bastante: continham THC, CBD ou combinações dos dois, e foram dados em óleos, cápsulas ou gel. Dois estudos usaram medicamentos licenciados (um de origem vegetal e um canabinoide sintético), e os outros sete usaram preparações manipuladas. Na comparação com placebo, os resultados foram estes:
- Qualidade e satisfação com o sono: pouco ou nenhum efeito clinicamente relevante (7 estudos, 374 participantes; certeza muito baixa).
- Tempo total de sono: diferença média de 7,68 minutos a mais com a cannabis, com uma margem de incerteza que ia de 23 minutos a menos até 38 minutos a mais (6 estudos, 194 participantes; certeza muito baixa).
- Funcionamento durante o dia: pouco ou nenhum efeito (5 estudos, 144 participantes; certeza muito baixa).
- Qualidade de vida: pode haver melhora, mas a evidência é muito incerta (3 estudos, 95 participantes). Segundo a divulgação da Cochrane, os dados combinados são compatíveis tanto com uma leve piora quanto com uma melhora grande.
- Efeitos indesejados: a cannabis pode aumentar levemente os eventos adversos (certeza baixa). Em três estudos cruzados, com 98 participantes que passaram pelos dois tratamentos, 37 tiveram efeitos indesejados só no período com cannabis, nenhum só no período com placebo, 14 nos dois períodos e 47 em nenhum. Tontura e boca seca estiveram entre os efeitos citados.
“A pesquisa disponível hoje não é suficiente para responder de forma confiável se a cannabis medicinal ajuda pessoas com insônia”, resumiu a autora principal, Lucia Varela, da Universidade de Manitoba, na divulgação do estudo. Ela ressaltou que isso não significa que a cannabis seja ineficaz, e sim que as evidências atuais não permitem conclusões confiáveis.
Como isso se conecta à saúde integrativa
A insônia é mais do que uma noite mal dormida. Segundo o resumo em linguagem simples da própria revisão, ela traz cansaço, falta de energia, dificuldade de concentração e alterações de humor, é especialmente comum entre mulheres e idosos e pode aparecer junto com dor crônica, depressão, ansiedade ou câncer. Olhar para o sono é olhar para a pessoa inteira.
O mesmo resumo lembra que o tratamento principal da insônia é a terapia cognitivo-comportamental, uma terapia de conversa que ajuda a mudar comportamentos e pensamentos que atrapalham o sono e que costuma funcionar bem. Remédios para dormir ficam como opção de curto prazo, porque podem causar sonolência, problemas de memória e dependência. É esse limite que alimenta o interesse por alternativas como a cannabis.
A saúde integrativa acolhe esse interesse, mas com o pé na evidência. Práticas e produtos complementares podem somar ao cuidado quando há dados que sustentem o uso, e nunca entram no lugar de um tratamento que funciona. Na semana passada, a Revista Integrativa mostrou um estudo em camundongos que acendeu um alerta sobre gomas de CBN vendidas para dormir. A revisão da Cochrane, agora com dados em pessoas, reforça a mesma mensagem: a fama de um produto anda mais rápido que a ciência sobre ele.
O que ainda não se sabe
Os próprios autores apontam as limitações, que são muitas:
- A maioria dos estudos era pequena, com menos de 50 participantes, e durou poucas semanas. O mais longo acompanhou as pessoas por 12 semanas, o que deixa em aberto o efeito e a segurança no uso prolongado.
- Os produtos testados eram diferentes entre si, e o sono foi medido de formas diferentes, o que dificulta comparar os resultados.
- Mulheres foram 72,66% dos participantes, e houve poucos idosos e poucas pessoas com outras doenças. Não se sabe se os achados valem para homens, idosos ou quem tem insônia associada a outras condições.
- A maior parte dos estudos foi feita em países desenvolvidos.
- Os revisores rebaixaram a confiança na evidência por alto risco de viés, resultados inconsistentes entre os estudos e imprecisão.
Ou seja: a revisão não prova que a cannabis medicinal não funciona para o sono. Ela mostra que ainda não há estudos bons o bastante para dizer que funciona. Os autores pedem ensaios maiores, mais longos, com resultados padronizados e com populações mais diversas.
Na prática
- Se você dorme mal com frequência, converse com seu médico. A revisão lembra que a insônia crônica é diagnosticada quando as dificuldades acontecem pelo menos três vezes por semana, por três meses ou mais.
- Pergunte sobre a terapia cognitivo-comportamental para insônia, apontada pela revisão como o tratamento principal.
- Se você usa ou pensa em usar qualquer produto de cannabis, conte ao profissional que acompanha você. O resumo da revisão cita efeitos como tontura, boca seca, problemas de memória, aumento do apetite, cansaço, estresse e preocupação. Natural não é sinônimo de inofensivo.
- Não interrompa nem troque por conta própria um tratamento em andamento.
- Se a insônia vier acompanhada de sofrimento emocional intenso, procure ajuda. O CVV atende gratuitamente pelo telefone 188.
Perguntas frequentes
Então a cannabis medicinal não serve para o sono?
A revisão não chegou a essa conclusão. Ela mostra que os estudos disponíveis são poucos, pequenos e curtos, e que neles a cannabis teve pouco ou nenhum efeito relevante em comparação com placebo. A resposta ainda está em aberto.
Os resultados valem para qualquer produto de cannabis?
Não necessariamente. Os estudos testaram produtos diferentes, com THC, CBD ou os dois, e não deu para saber se alguma formulação específica funciona melhor.
Qual é o tratamento mais indicado para insônia?
Segundo a revisão, a terapia cognitivo-comportamental é o tratamento principal. A melhor escolha para cada pessoa deve ser feita com um profissional de saúde.


