Ritmo da caminhada no dia a dia ligado a menor risco de morte
Estudo com 4.067 britânicos de cerca de 69 anos ligou andar mais rápido, no teste ou medido no pulso, a menor mortalidade em quase 12 anos.

Quão rápido alguém caminha diz algo sobre a sua saúde? Um estudo publicado em 23 de outubro de 2026 na revista científica JAMA Network Open comparou duas formas de medir esse ritmo em pessoas mais velhas: o teste clássico de velocidade, cronometrado por uma enfermeira num percurso curto, e a cadência da caminhada no dia a dia, em passos por minuto, registrada por um sensor usado no pulso.
A pesquisa foi liderada por Rayane Haddadj, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, com colegas de instituições como o Inserm e a Universidade Paris Cité (França), a Universidade de Leicester e a University College London (Reino Unido). Trata-se de um estudo de coorte, ou seja, observacional: os pesquisadores acompanharam 4.067 participantes do estudo britânico Whitehall II, com idade média de 69,3 anos, por uma mediana de 11,8 anos. Nesse período, 739 pessoas (18,2%) morreram.
O que o estudo encontrou
A velocidade foi medida num percurso de 2,44 metros, no ritmo habitual de cada pessoa, usando a média de três tentativas. A cadência veio de um acelerômetro usado no pulso não dominante por 9 dias, entre 2012 e 2013. Os pesquisadores analisaram dois números: a cadência mediana (o ritmo típico da pessoa ao caminhar) e a cadência do percentil 95 (os momentos de caminhada mais rápida).
Em média, os participantes andavam a 1,2 metro por segundo no teste, tinham cadência mediana de 75,3 passos por minuto, chegavam a 112,2 passos por minuto nos momentos mais rápidos e davam 9.524 passos por dia.
No modelo estatístico com mais ajustes, que levava em conta fatores de risco e de saúde, os resultados foram estes:
- Cada 0,1 metro por segundo a mais na velocidade do teste se associou a um risco de morte 10% menor no período (razão de risco de 0,90).
- Cada 10 passos por minuto a mais na cadência mediana se associou a um risco 17% menor (razão de risco de 0,83).
- Cada 10 passos por minuto a mais na cadência dos momentos mais rápidos se associou a um risco 19% menor (razão de risco de 0,81).
As associações da cadência se mantiveram mesmo depois de considerar o total de passos por dia. Elas foram, em geral, parecidas entre homens e mulheres, entre faixas de idade, entre pessoas com diferentes índices de massa corporal e com ou sem doenças crônicas.
As duas formas de medir tiveram capacidade semelhante de distinguir quem tinha maior risco de morrer. Mas só a velocidade no teste melhorou essa capacidade de forma estatisticamente significativa em relação a um modelo que já incluía os fatores de risco, e o ganho foi pequeno: o índice usado para medir essa discriminação passou de 0,742 para 0,747. Outro achado curioso: velocidade e cadência se correlacionaram pouco entre si, o que indica que não medem exatamente a mesma coisa.
Como isso se conecta à saúde integrativa
O estudo dialoga com uma ideia cara à saúde integrativa: o corpo dá sinais no cotidiano, e observar a forma como uma pessoa se move pode ajudar a compor um retrato mais completo da sua saúde, ao lado dos exames e da conversa no consultório. A cadência medida no pulso tem a vantagem de refletir a vida real, ao longo de vários dias, e não só alguns segundos numa clínica.
Os autores lembram que o teste de velocidade é rápido, barato e exige pouco processamento de dados. Já os acelerômetros registram vários dias seguidos e captam também a intensidade da atividade e a postura. Segundo eles, dispositivos vestíveis podem ajudar a levar essas medidas para a prática clínica ou para programas de mudança de hábitos com retorno em tempo real.
É importante não tirar conclusões além do que o estudo mostra. Ele não testou se acelerar o passo de propósito reduz o risco de morte. O que se viu foi que pessoas que, no seu ritmo habitual, andavam mais rápido tiveram menor mortalidade no período, uma associação que pode ter várias explicações.
O que ainda não se sabe
- É um estudo observacional: mostra associação, não prova que andar mais rápido cause menor mortalidade.
- Os participantes eram, em sua maioria, servidores públicos britânicos: 74,4% eram homens e 92,5% eram brancos. Os resultados podem não valer da mesma forma para outras populações, como a brasileira.
- O grupo que usou o sensor era mais saudável do que a amostra geral do estudo naquele período, o que pode influenciar os resultados.
- Não existe um método padronizado para calcular a cadência a partir de acelerômetros, e os pesquisadores não tinham outro conjunto de dados para validar os achados. Eles pedem que o resultado seja repetido em outros contextos.
- Cadência e velocidade são relacionadas, mas, segundo os autores, não são intercambiáveis.
Na prática
- O estudo não estabelece uma meta de velocidade nem de passos por minuto. Ele não deve ser usado como regra individual.
- Se você usa relógio ou pulseira que registra passos, esses dados podem entrar na conversa com seu médico sobre o movimento no seu dia a dia.
- Se notar que passou a caminhar bem mais devagar ou com mais dificuldade, comente na próxima consulta.
- Antes de começar ou intensificar caminhadas, especialmente se você tem alguma doença crônica, converse com seu médico ou com um profissional de educação física sobre o ritmo que faz sentido para você.
Perguntas frequentes
Andar mais rápido de propósito aumenta a expectativa de vida?
O estudo não testou isso. Ele observou pessoas caminhando no seu ritmo habitual e encontrou uma associação, que não prova causa e efeito.
O que é cadência da caminhada?
É o número de passos por minuto enquanto a pessoa caminha. No estudo, ela foi medida por um sensor no pulso ao longo de 9 dias.
Os participantes eram muito idosos?
A idade média era de 69,3 anos no início do acompanhamento. Por isso, os resultados não podem ser transferidos automaticamente para pessoas mais jovens.


