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Quase 30% admitem exagerar sintomas para conseguir antibiótico

Pesquisa nos EUA com 959 adultos mostra quem exagera sintomas e por quê; sentir-se pouco ouvido pelo profissional dobrou a chance.

Redação Integrativa 6 min de leitura
Mãos segurando uma xícara de chá quente ao lado de um lenço de papel, em casa

Quase três em cada dez adultos ouvidos em uma pesquisa nos Estados Unidos admitiram já ter exagerado ou inventado sintomas diante de um profissional de saúde para sair da consulta com um antibiótico. O dado é de um estudo publicado em 30 de outubro de 2026 na revista científica JAMA Network Open, conduzido por pesquisadores ligados principalmente à Universidade de Utah.

Trata-se de uma pesquisa transversal feita pela internet entre janeiro e fevereiro de 2026, com 959 adultos de todo o país (idade média de 50,7 anos, metade mulheres). A amostra não foi sorteada ao acaso: os participantes foram recrutados por uma empresa de pesquisa, com cotas de idade, gênero, raça e região. No mesmo dia, a equipe publicou um segundo trabalho, mais curto, com 236 pais e responsáveis, sobre o que acontece quando o paciente é uma criança.

O que o estudo encontrou

Dos 959 participantes, 268 (27,9%) disseram ter, alguma vez, apresentado os sintomas de forma diferente da real para conseguir um antibiótico. Entre eles:

  • 40,3% só exageraram sintomas que já tinham;
  • 7,1% só inventaram sintomas;
  • 52,6% fizeram as duas coisas.

A estratégia costumava funcionar: 76,9% desse grupo contou ter conseguido o antibiótico desse jeito pelo menos uma vez. Os sintomas mais usados foram os de resfriado (65,7%), os de estômago (49,3%) e dores nas articulações ou nos músculos (46,3%).

Os motivos mais citados ajudam a entender o comportamento: sentir-se muito mal (62,2%), acreditar que o antibiótico era a única coisa que ia ajudar (61,8%), precisar voltar logo ao trabalho ou aos cuidados com a família (61,0%) e achar que conhece o próprio corpo melhor do que o profissional (54,1%). Perguntados sobre de onde tiraram a ideia do que dizer, 43,1% citaram a própria experiência, 34,5% amigos ou família, 21,7% redes sociais e 11,6% chatbots de inteligência artificial.

Na análise de fatores associados, que os autores chamam de exploratória, algumas características apareceram ligadas a mais chance de exagerar sintomas: ter menos de 56 anos (em comparação com quem tinha 65 anos ou mais), precisar de ajuda para entender materiais de saúde e, com destaque, sentir com frequência que os profissionais não levam seus sintomas a sério. Nesse último caso, a chance foi cerca de 2,2 vezes maior. Saber mais sobre antibióticos, por outro lado, esteve ligado a menor chance.

Houve também arrependimento: 28,7% de quem exagerou sintomas disse se arrepender, e 27,2% se arrependeu de ter tomado o remédio. No estudo com crianças, 26,7% dos 236 responsáveis relataram já ter exagerado ou inventado sintomas do filho para conseguir antibiótico.

Como isso se conecta à saúde integrativa

O achado mais interessante para quem pensa a saúde de forma integrada talvez não seja o número de 27,9%, e sim o motivo por trás dele. Quem se sente pouco ouvido teve mais chance de “aumentar” o que sente. É um sinal de que a qualidade do vínculo entre paciente e profissional também interfere em decisões concretas de tratamento.

Uma das autoras, Andrea Gurmankin Levy, resumiu a mensagem ao comentar o trabalho: a lição não é que os profissionais desconfiem mais dos pacientes, e sim que construam consultas em que as pessoas se sintam ouvidas. Os próprios autores defendem duas frentes: informar melhor a população sobre antibióticos e melhorar a comunicação na consulta.

Há uma razão de saúde pública para isso. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o uso inadequado e excessivo de antimicrobianos é um dos principais motores da resistência a esses remédios, e a resistência bacteriana esteve associada a mais de 4,7 milhões de mortes no mundo em 2021. Já o CDC, agência de saúde dos Estados Unidos, lembra que antibióticos não funcionam contra vírus, como os de resfriados, gripe e da maioria das dores de garganta, e que não fazem a pessoa se sentir melhor nesses casos.

Em outras palavras: o antibiótico usado sem necessidade não traz o alívio esperado, pode causar efeitos colaterais e ainda contribui para um problema coletivo. Olhar para a pessoa inteira inclui acolher o desconforto real de quem está doente e precisa trabalhar, sem que isso precise virar uma receita.

O que ainda não se sabe

  • A amostra não representa toda a população. Como os participantes não foram sorteados, os autores tratam os números como preliminares, úteis para gerar hipóteses.
  • Tudo depende da memória e da sinceridade. A pergunta era se a pessoa já tinha feito isso alguma vez na vida. Pode haver subnotificação, por vergonha, ou erros de lembrança.
  • Associação não é causa. Não dá para afirmar que sentir-se pouco ouvido leva alguém a exagerar sintomas; o estudo mostra que as duas coisas aparecem juntas.
  • Os dados são dos Estados Unidos. As regras de venda de antibióticos, o acesso à consulta e a cultura de atendimento variam entre países, e o estudo não incluiu brasileiros.
  • Frequência e intensidade não foram medidas. A pesquisa não perguntou quantas vezes isso aconteceu nem o quanto os sintomas foram aumentados.

Na prática

  • Conte seus sintomas como eles são, incluindo o quanto eles atrapalham sua rotina. Isso é informação útil para o profissional, e não exagero.
  • Se você sente que não está sendo levado a sério, diga isso na consulta ou procure uma segunda opinião. Comunicação clara ajuda os dois lados.
  • Pergunte ao profissional o que pode ajudar você a se sentir melhor enquanto o corpo combate a infecção, como sugere o CDC.
  • Não pressione por um antibiótico. Se ele for prescrito, tire suas dúvidas sobre como usar, e avise o profissional se surgirem efeitos colaterais.
  • Vale o mesmo para as crianças: descrever com precisão o que o filho sente é a melhor forma de cuidar dele.

Perguntas frequentes

Antibiótico ajuda a curar resfriado?
Não. Segundo o CDC, antibióticos não funcionam contra vírus, que causam resfriados e gripe.

Por que usar antibiótico sem necessidade é um problema?
Porque pode causar efeitos colaterais e, segundo a OMS, o uso inadequado é um dos principais motores da resistência bacteriana.

O estudo diz que os pacientes mentem por má-fé?
Não. Os motivos mais citados foram sentir-se muito mal, acreditar que o remédio era a única saída e precisar voltar às responsabilidades.

Aviso: este conteúdo tem caráter jornalístico e informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento com profissional de saúde habilitado. Espaços publicitários são identificados e não interferem na pauta editorial.

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