Pular para o conteúdo

Meditação pode ter efeitos adversos? O que dizem os estudos

Levantamento com 886 adultos e dois ensaios de 2026 mostram que experiências difíceis ao meditar existem, mas nem sempre são causadas pela prática.

Redação Integrativa 5 min de leitura
Almofada de meditação de linho no chão de madeira, ao lado de uma manta e uma xícara de chá, em luz suave da manhã

A meditação costuma ser apresentada como uma prática sem contraindicações: sentar, respirar, observar. Mas a pesquisa científica tem olhado com mais atenção para um lado menos falado do tema. Afinal, meditar pode trazer efeitos adversos, como ansiedade, insônia ou experiências perturbadoras? E, quando eles aparecem, a culpa é da meditação?

Dois estudos recentes ajudam a responder. Um levantamento com 886 adultos representativos da população dos Estados Unidos, publicado em 2025 na revista Clinical Psychological Science, mediu com que frequência praticantes relatam experiências difíceis. E um trabalho publicado em 2026 na JMIR Mental Health, com dois ensaios clínicos randomizados de um programa digital de meditação, testou se essas experiências são de fato causadas pela prática. As conclusões se complementam e pedem um olhar cuidadoso, sem alarme e sem idealização.

O que os estudos encontraram

No levantamento americano, conduzido pelo pesquisador Nicholas Van Dam e colegas, os participantes foram escolhidos para refletir a população do país em idade, gênero e raça. Os números variaram muito conforme a forma de perguntar:

  • 96,6% relataram alguma experiência incomum durante a meditação;
  • 58,4% relataram algum efeito adverso em um dos questionários usados;
  • 31,4% disseram ter vivido uma experiência desafiadora, difícil ou angustiante;
  • 9,1% relataram prejuízo no funcionamento do dia a dia por causa desses efeitos.

Segundo os autores, sofrimento psicológico prévio, traços psicóticos, crenças incomuns e participação em retiros de meditação se associaram a mais relatos de experiências incomuns e efeitos adversos.

Já o trabalho da JMIR Mental Health, assinado pelos pesquisadores Beloborodova, Davidson e colegas, analisou adultos com sofrimento emocional que usaram o Healthy Minds Program, um programa digital de meditação guiada. No primeiro estudo, com 315 universitários, 27,9% relataram ao menos uma experiência adversa e 6,7% relataram prejuízo funcional. No segundo, com adultos de todo o país, 10,1% relataram alguma experiência adversa e 3% relataram prejuízo funcional.

O dado mais importante veio da comparação: no segundo estudo, as experiências adversas foram igualmente frequentes entre quem fez e quem não fez as meditações guiadas. Para os autores, isso sugere que, nesse grupo de pessoas já em sofrimento, essas experiências não foram causadas pela meditação, e sim refletiam o sofrimento que já existia. Depressão, ansiedade e solidão mais altas no início, por exemplo, previram mais relatos. Ainda assim, cerca de 90% de quem teve alguma experiência adversa disse estar contente por ter aprendido a meditar.

Como isso se conecta à saúde integrativa

A meditação é uma das práticas complementares mais usadas: segundo o Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos (NCCIH), a parcela de adultos americanos que meditam mais que dobrou entre 2002 e 2022, de 7,5% para 17,3%. Justamente por ser tão difundida, merece o mesmo cuidado que qualquer outra intervenção de saúde.

O NCCIH informa que meditação e mindfulness costumam ser consideradas práticas de poucos riscos, mas que poucos estudos investigaram efeitos nocivos, o que impede afirmações definitivas sobre segurança. O órgão cita uma revisão de 2020 com 83 estudos e 6.703 participantes que estimou que cerca de 8% tiveram algum efeito negativo, percentual semelhante ao relatado para psicoterapias. Ansiedade e depressão foram os efeitos negativos mais comuns. Em uma análise de 3 estudos de programas de redução de estresse baseados em mindfulness, a prática não foi mais prejudicial do que não receber tratamento.

O olhar integrativo valoriza a meditação, mas também a pessoa por inteiro: sua história, seu momento emocional e o acompanhamento que ela já tem. Uma prática que ajuda muita gente pode exigir mais cuidado para alguns.

O que ainda não se sabe

  • As taxas mudam muito conforme o questionário. No levantamento americano, a mesma amostra gerou números de 9,1% a 96,6%, dependendo do que se perguntava. Não há ainda uma forma padronizada de medir efeitos adversos da meditação.
  • O levantamento de 2025 é transversal e baseado em lembranças dos participantes: mostra associações, não prova que a meditação causou os efeitos relatados.
  • Os ensaios de 2026 avaliaram um único programa digital, em pessoas com sofrimento emocional. Os resultados não se aplicam automaticamente a retiros intensivos ou a outras técnicas.
  • O próprio NCCIH reconhece que faltam estudos desenhados para medir danos.

Na prática

  • Meditar continua sendo uma prática considerada de poucos riscos para a maioria das pessoas, segundo o NCCIH.
  • Se você tem histórico de transtorno mental ou está passando por sofrimento emocional importante, converse com seu psicólogo ou médico antes de começar ou de intensificar a prática, especialmente antes de retiros.
  • Se a meditação trouxer ansiedade, lembranças perturbadoras ou sensação de estranhamento que não passam, pause a prática e procure orientação de um profissional qualificado.
  • Meditação pode somar ao cuidado com a saúde mental, mas não substitui o tratamento indicado por um profissional.
  • Se você estiver em sofrimento, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em emergência, ligue para o SAMU (192).

Perguntas frequentes

Meditação faz mal?
Para a maioria das pessoas, é considerada uma prática de poucos riscos. Os estudos mostram que experiências difíceis podem ocorrer, e um dos trabalhos de 2026 sugere que, em pessoas já em sofrimento, muitas delas refletem o que a pessoa já vivia, não a meditação em si.

Quem precisa de mais cuidado?
No levantamento americano, sofrimento psicológico prévio e participação em retiros se associaram a mais efeitos adversos. Nesses casos, vale planejar a prática com acompanhamento profissional.

Aviso: este conteúdo tem caráter jornalístico e informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento com profissional de saúde habilitado. Espaços publicitários são identificados e não interferem na pauta editorial.

Continue lendo

Mente & Emoções

Proibir celular na escola não mudou a saúde mental de jovens

28 out 2026 · 5 min
Mente & Emoções

Cultura frequente ligada a menos transtornos mentais após os 50

21 out 2026 · 5 min
Mente & Emoções

Inteligência artificial e saúde mental: limites éticos e riscos

13 jul 2026 · 3 min

Uma edição por semana, sem pressa.

Receba as matérias da semana no seu e-mail, com as fontes de cada texto.

Sem spam. Cancele quando quiser.