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Proibir celular na escola não mudou a saúde mental de jovens

Estudo com 23.938 respostas de alunos na Islândia não viu mudança em depressão, ansiedade ou bullying após a proibição. Atenção e aprendizado não foram medidos.

Redação Integrativa 5 min de leitura
Corredor de escola com armários, mochila e um celular guardado sobre o banco de madeira

Proibir o celular durante o período escolar não esteve ligado a mudanças na saúde mental de adolescentes na Islândia. É o que mostra um estudo publicado em 27 de outubro de 2026 na revista JAMA Network Open, conduzido por pesquisadores da Reykjavik University com colegas de universidades dos Estados Unidos e da Suécia.

A pesquisa é um estudo observacional que analisou 23.938 respostas de estudantes de 13 a 15 anos em 70 escolas islandesas, coletadas em três pesquisas nacionais (2016, 2018 e 2023). Nesse período, 22 dessas escolas adotaram a proibição, com o celular guardado em casa, no armário ou na mochila durante o horário escolar. O tema interessa diretamente às famílias brasileiras: desde janeiro de 2025, a Lei 15.100 restringe o uso de celulares por estudantes da educação básica durante as aulas, o recreio e os intervalos, em escolas públicas e privadas.

O que o estudo encontrou

Os pesquisadores compararam a evolução dos estudantes nas escolas que adotaram a proibição com a dos estudantes nas escolas que não adotaram, um método chamado de diferença em diferenças. Eles avaliaram sintomas depressivos, ansiedade, hostilidade e bem-estar mental, além de apoio dos colegas, bullying presencial e virtual e tempo de tela fora da escola.

  • Na amostra completa, a proibição não esteve associada a mudanças significativas em sintomas depressivos, ansiedade, hostilidade ou bem-estar mental.
  • Também não houve mudança significativa no apoio percebido dos colegas, no uso de redes sociais, em jogos ou em vídeos.
  • Nos indicadores de bullying, como receber ou enviar mensagens ofensivas, os resultados também não mostraram diferença significativa.
  • Os autores fizeram 33 comparações. Nenhuma delas, no período após a proibição, atingiu o limiar estatístico ajustado para tantas comparações. Um resultado isolado entre as meninas (bem-estar um pouco menor) não resistiu a esse ajuste.

A conclusão dos autores é que a proibição, adotada sozinha, pode ser insuficiente para melhorar a saúde mental dos adolescentes no nível da população.

Como isso se conecta à saúde integrativa

O resultado ajuda a lembrar que a saúde mental de um adolescente raramente depende de uma única causa ou de uma única solução. Os próprios autores sugerem que, se as escolas restringem o celular, a medida pode funcionar melhor dentro de estratégias mais amplas, como programas de combate ao bullying com base em evidência, educação para a cidadania digital, apoio a boas relações entre colegas e cuidado com a forma como a regra é aplicada.

Esse olhar combina com o cuidado integrativo: considerar a pessoa inteira e o ambiente em que ela vive, incluindo escola, família, sono, convivência e vínculos. Os autores também lembram que o estudo não mediu benefícios que podem acontecer dentro da sala de aula, como atenção, participação, tempo de ensino e clima escolar. Ou seja, “não mudou a saúde mental” não é o mesmo que “não serve para nada”.

O que ainda não se sabe

  • É um estudo observacional. As escolas escolheram adotar a proibição, e os motivos não foram registrados, o que impede afirmar causa e efeito em qualquer direção.
  • Antes da proibição, já havia diferenças de tendência entre as escolas, principalmente entre as meninas, o que pede cautela na interpretação.
  • Os dados são de autorrelato, sem diagnóstico clínico, e o tempo de tela foi informado pelos próprios estudantes.
  • Os pesquisadores não conseguiram medir se a regra foi cumprida de fato em cada escola.
  • O período incluiu a pandemia de covid-19, que mexeu com a saúde mental e o uso de telas de forma difícil de separar.
  • Estudos de outros países citados pelos autores tiveram resultados mistos: no Reino Unido não houve associação com saúde mental; no sul da Austrália, uma proibição estadual foi ligada a pequenas reduções de sofrimento psicológico; na Noruega, a menos bullying e menos uso de atendimento em saúde mental entre meninas.
  • A Islândia tem realidade social e escolar diferente da brasileira, e o efeito da lei por aqui ainda precisa ser estudado.

Na prática

  • Regras sobre celular na escola podem ter outros objetivos, como atenção e convivência, mas não substituem o cuidado com a saúde mental dos adolescentes.
  • Em casa, vale conversar sobre como o adolescente se sente, como estão o sono, as amizades e a vida na escola, sem transformar o celular no único vilão.
  • Se perceber tristeza persistente, isolamento, mudanças bruscas de comportamento ou sinais de bullying, procure a escola e um profissional de saúde, como pediatra, psicólogo ou psiquiatra.
  • Em sofrimento intenso, o CVV atende pelo telefone 188. Em emergência, ligue para o SAMU (192).

Perguntas frequentes

Então proibir o celular na escola não adianta?
O estudo avaliou só a saúde mental, o bullying e o tempo de tela. Possíveis efeitos na atenção e no aprendizado não foram medidos.

O que diz a lei brasileira?
A Lei 15.100/2025 restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis por estudantes da educação básica durante aulas, recreio e intervalos, com exceções para fins pedagógicos, acessibilidade, inclusão, questões de saúde e situações de perigo ou força maior.

Aviso: este conteúdo tem caráter jornalístico e informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento com profissional de saúde habilitado. Espaços publicitários são identificados e não interferem na pauta editorial.

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